O calaboquismo,
fenômeno típico do autoritarismo que julgávamos ultrapassado, voltou com tudo
dando as caras no PLC 23/2014, pensado pela Secretaria Estadual de Educação e
encaminhado a esta Casa de Leis para ser votado em regime de urgência. Com o
pretexto de versar sobre o período probatório de novos diretores de escola e
sobre a avaliação dos diretores em exercício, o projeto exacerba no descalabro
de “vigiar e punir”, lembrando M. Foucault, os diretores das escolas públicas
estaduais.
A Secretaria Estadual
de Educação não quer oposição, não gosta de ouvir o outro, abomina opinião
diferente e não suporta crítica de servidores. Disso tudo já sabíamos. Agora,
com este PLC proposto para virar lei, ficamos sabendo que o torniquete vai mais
além e que o cala-a-boca ainda não morreu. E tem seus dias de glória no
gabinete instalado na augusta Praça da República.
Apontamos a seguir
vários equívocos desse absurdo do autoritarismo que a administração
voorwaldiana quer nos impor goela abaixo:
— ignora a história dos
servidores e seus anos anteriores em vários cargos e funções das escolas;
— abusa de justificar
medidas avaliativas com base em conceitos discutíveis do velho e autoritário
Estatuto do Funcionário Público estadual, entre os quais a disciplina,em seu
matiz de obediência cega;
— estabelece a
possibilidade de perda pura e simples do cargo, mesmo depois de aprovado em
concurso, passar por curso de “preparação” e estágio probatório de três anos,
atropelando qualquer garantia de estabilidade;
— institui comissões de avaliação a serem propostas por ato do próprio
secretário, certamente compostas por servidores de sua absoluta confiança e
partidários dessa ordem de obediência cega ao que prega, determina e impõe a SEE;
Pior que isso, muito
pior mesmo, é o pressuposto que está na subjacência desse projeto de lei
complementar: transferir toda a responsabilidade do bom funcionamento e
desempenho da escola estadual para o diretor de escola. Ou seja: se a escola
não anda bem (por razões largamente conhecidas por todos nós: prédios
escangalhados, falta perene de funcionários e professores, ausência de material
didático diversificado e de qualidade, baixíssimos salários etc), se a escola
não consegue atingir mínimos propostos por estas avaliações externas quase
inúteis, a resposta já está dada. O governo não tem nada com isso; o problema é
do diretor da escola, que carregará sozinho o ônus do fracasso escolar em seus
ombros. De uma sagacidade perversa urdida com extrema competência para vigiar e
punir. Uma prova cabal que a SEE não está nem um pouco preocupada com a
qualidade do ensino da maioria de suas escolas (haja vista ser o projeto de
ensino médio integral a sua menina dos olhos). Preocupa-se, é verdade, em
manter calados os diretores de suas escolas exigindo deles o permanente
abafamento de conflitos, sob a hipocrisia da disciplina, para que os problemas,
as perturbações e as reivindicações fiquem quietas, sufocadas no âmbito da
escola, como um vulcão a queimar a si próprio sem que a opinião pública saiba a
quantas anda o projeto educacional tucano no Estado mais rico da federação. Não
podemos aprovar esse cala-a-boca nesta Casa. Deputados, entidades sindicais,
educadores, pesquisadores, ONGs, universitários e toda e qualquer liderança:
precisamos do voto de protesto, de sua fala de alerta, de seus olhos de
indignação para barrar esse retrocesso grosseiro na história da Educação
brasileira.
*Carlos Giannazi é deputado estadual pelo PSOL e membro titular da Comissão
de Educação e Cultura.

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